terça-feira

De um click



‘’Vamos lá, só mais um sorriso pro papai!’’
Ele gritava descontrolado, com a filmadora pendurada entre os nós dos dedos.
O filho desmontava e montava de novo a arte de correr descalço na lama, e agora ria como se tivesse acabado de descobrir que as nuvens realmente são de algodão.


O Menino Voador(de um livro que nunca li)


Tentava e tentava

E não voava

Voava

Deixava os braços contrastarem com o vento

Em alento de mãos pequenas

Lentamente ia fazendo

Tipos e cenas 

De quem poderia voar

E voltava a cair

sexta-feira

Até o fim do mundo


Saiu de casa e começou a correr.Passou correndo pelo posto de gasolina. Correu entre uns muros quebrados da antiga escola em que estudara. Acelerou o passo na avenida principal, enquanto via todas aquelas vitrines fluorescentes passando velozes e rindo sem dentes. Correu com os cachorros de rua. Correu com os mendigos que disputavam comida. Correu com a menina que amara por toda uma vida. Passou por um rio fundo e molhou a camisa nova. Pediu desculpas ao trombar numa velha senhora. Passou correndo por um show de rock tocado com garrafas pets. Correu para acompanhar o sol. Ouviu o batuque rápido de um tambor que acompanhava seus passos. Correu pelas cenas de um filme erótico. Sentiu pena daquela mulher. Passou correndo por um namorado que pedia desculpas com flores, e correu mais rápido para não ouvir a resposta dela. Correu pelo porto, enquanto ouvia umas baleias cantarem Elvis com trombetas. Decidiu que estava cansado. Correu em círculos por um hotel de beira de estrada. De manhã, quando a camareira foi abrir tudo, ele saiu correndo. Foi perseguido por um cachorro babão que queria brincar. Viu campos verdes, que depois foram ficando roxos, amarelos, azuis. E viu outros cheios de crianças com picolés. Sentiu as solas dos sapatos descolarem. Descobriu que ler e correr poderia fazê-lo tropeçar. Correu entre folhas murchas de árvores no chão. Correu num dia de chuva. Num dia de trovões. Num dia de sol ardente. Num dia em que ninguém saiu. Passou por uma cidade em que todos queriam correr também, mas não tinham coragem. Correu por montanhas. Correu mais rápido quando notou um urso faminto por ali. Correu. Correu até um abismo sem fundo. E não parou de correr. Até que sentiu os pés tocarem o vazio, e as pernas flutuaram enquanto ele descobria que havia chegado ao fim do mundo.

E correu mais ainda. E não parou.

quinta-feira

Brisa


Declare-me acima de qualquer suspeita e abaixo de nada mais do que um mundo inteiro de culpa. Faça-me crer que de todas as coisas do mundo eu sou a mais infinitamente descartável, a ponto de rir do absurdo, só porque nem o maior dos absurdos seria absolutamente tão resoluto quanto eu já fui um dia. Faça-me sentir arrepios sem frio, sem medo, sem dor. Faça-me rir sem graça. E faça-me chorar sem lágrimas, porque só o que consigo mesmo é isso: é chorar em silencio enquanto não escorre uma nesga de tristeza. E tudo porque não é tristeza. É quase que desesperança mesmo. Levante minhas mãos, e olhe entre meus dedos, e descubra porque mãos no ar valem muito mais do que aquelas que se escondem em bolsos. Crie bolsas de ar a partir da pulsação de uma brisa, e brise como eu seria capaz de brisar, por nada mais além de qualquer trocado inteiro. Nada além do que já estou acostumado a não ver. Sabe aquelas coisas que você já se acostumou a não ver?

terça-feira

Texto piloto



Deixou o outro por ali mesmo, desacordado e cheirando a pólvora. Correu para bem próximo. Queria ver tudo de perto. As calças velhas já apertavam as pernas finas e dificultavam até a locomoção. Uma mulher rabugenta passava olhando, e ele fingiu estar perdido. Olhou para os lados, pôs os dedos no ar. Fez alguns gestos estranhos. Coçou a cabeça. Sentiu grãozinhos de areia, correndo feito loucos pelo couro cabeludo. A mulher, ao invés de ir embora, aproximou-se do rapaz de cabelo seboso e escorrido que devia estar perdido. Ela mostrou-se interessada em ajudá-lo, depois de uma visitinha à velha casa que herdara do saxão de quem fora esposa. O velho morrera com estranhas marcas e uns panos velhos enrolados no pescoço, que ela alertara à policia como um brutal suicídio. Os detetives perguntaram o porquê de tanta demora em avisar o ocorrido. Ela viajara a uma cidadela próxima, para visitar uns parentes, argumentou. Por três dias?Sim, ela disse. Ninguém em lugar algum vira ou ouvira qualquer argumento que procedesse com as palavras da mulher.

quinta-feira

Kamikazes


Corria desesperadamente, uma dor apertando seu peito, fazendo com que tivesse dificuldade de respirar. Ainda vestia a roupa do circo, e ainda podia ouvir gritos distantes, que lhe informavam que nada o faria ficar tão longe que não pudesse ouvir aquilo tudo. Já havia arrancado os sapatos desde a hora que saíra, e agora sentia os pés em carne viva, e cheios de poeira. Arfava e tossia com as mãos escoradas sobre os joelhos, num meio movimento de quem esta prestes a cair de cansaço. Os pingos de suor escorriam num reflexo de cores, daquelas que só pessoas de circo usam. Daquelas que te deixam mais imponente. Daquelas que te congelam triste ou feliz. Numa expressão que, de tão irreal, torna-se sincera. As mãos estavam molhadas, de suor e sangue, ele achava. O líquido quente escorria pelos braços, e se esgueirava até a ponta dos dedos, e pulava como um mortal kamikaze. Sem medo algum. Caíam e evaporavam em pouco tempo. Parecia ser este o sentido de suas vidas de gota: escorrer por onde desse, se prender a coisas que lhe fossem de importância, ou pularem dos lugares mais absurdos, para um futuro que, todas elas sabiam, as levaria para uma triste e solitária evaporação. Para um triste fim. Mesmo assim pulavam. E pulavam sem medo da dor. Pulavam sem medo do fim. E gritavam como numa queda de montanha russa até se espatifarem no chão quente e não durarem mais do que alguns segundos, fervendo e evaporando. Mesmo assim pareciam não se arrepender, e o olhavam com a simples concordância de que se pudessem, sim, fariam tudo de novo. E não parariam até ter uma perspectiva melhor de existir. Pular, cair, sorrir, evaporar.

quarta-feira

Trecho de algum rótulo de gente

''Satisfez-se com apenas dois ou três sorrisos irônicos que diziam nada mais do que somente o que ele queria saber. Estavam todos parados ali, olhando. Em sorrisos irônicos. Constariam, tempos depois, que ironizar nada mais é do que expor uma depressão contida, escondida e contínua, como água corrente em rios subterrâneos. E todos os sorrisos irônicos eram só uma comprovação em voz estridente de uma menina irritante. E apesar de tudo isso, nenhum deles sequer notava que eram eles quem estavam com as calças nas mãos. Eles é que estavam nus e desinibidos, e estavam assim completamente alheios a uma visão simplista do mundo. E mostravam sem querer ali tantas frustrações quanto se é possível mostrar. Tantos sorrisos de depressão que dilata os vasos quanto é possível. Tanta amargura quanto é possível aprender a ter. Tanto hipocrisia quanto é aconselhável beber.''

segunda-feira

Surtir


Parei bem no meio do quarteirão. Olhei pro chão. Acho que faço isso sempre que olhar pra qualquer outro lugar se torna difícil. Já começavam a cair umas gotinhas rebeldes de uma chuva que viria muito tempo depois. Eu ri. Não que seja bom ter um compromisso a cumprir e chegar totalmente encharcado, cheirando a tapete molhado... Mas acho que me acostumei com esse tipo de coisa, e simplesmente aprendi a rir toda vez que chove e eu estou parado no meio de uma rua qualquer, totalmente perdido. Tolamente perdido.

terça-feira

Falta

Sinto falta dos amigos.

Sinto falta de pegar chuva, de nadar sem rumo. Sinto falta de rir à toa. De comer biscoitos e pipoca. E chocolate. De fazer coleta pra comprar comida. Sinto falta de histórias de terror e de brincadeiras sem sentido. Sinto falta das gargalhadas que tiravam o ar. Dos comentários sobre tudo e qualquer coisa. Das tardes ouvindo música. Dos momentos de depressão em conjunto. Dos momentos de alegria em conjunto. Sinto falta das músicas que tocavam, e que repetiam várias vezes até ninguém mais agüentar. Sinto falta até das brigas. De todas as discordâncias. De assistir TV com todo mundo.

quarta-feira

Acostumando


“Tá, então eu acordo hoje, e ele não.”

Foi a primeira coisa que consegui pensar. É esse tipo de coisa que dói. O tipo de coisa que faz o coração palpitar descompassado. Há coisas do mundo que simplesmente nunca vou conseguir entender.

Morrer. Ficar só. Não precisamos disso. Não deveríamos pagar assim. Você é louco por alguém, e simplesmente não vai poder ver essa pessoa sorrir nunca mais. Nunca mais. E não vai poder encontrar abrigo ali. Não mais. Não é certo. Tão poucas pessoas aprendem a amar. E as pessoas que nós amamos não deveriam ir. Nunca. Pergunto-me às vezes sobre o que posso fazer agora. O que vou fazer agora. Como vou fazer, e se isso vai ser anestésico. Se vai fazer parar de doer. É meio depressivo isso, não é?